Pensavas que a tua televisão servia apenas para veres filmes e séries? Pensa melhor. O Estado do Texas, nos Estados Unidos, acaba de lançar uma bomba jurídica sobre a indústria de eletrónica de consumo, processando a Samsung, a Sony, a LG, a Hisense e a TCL. A acusação é digna de um episódio de Black Mirror: estas empresas são acusadas de operar um esquema de “vigilância em massa”, recolhendo dados dos utilizadores sem o seu consentimento explícito.
O Procurador-Geral do Texas, Ken Paxton, não poupou nas palavras, alegando que estas marcas violaram a lei ao recolherem dados pessoais sensíveis através de uma tecnologia que está presente na maioria das salas de estar modernas.

O espião na sala de estar: Como funciona o ACR
O centro da polémica gira em torno de uma tecnologia chamada Automated Content Recognition (ACR) (Reconhecimento Automático de Conteúdo). Segundo os processos judiciais, esta tecnologia permite que as Smart TVs capturem imagens (capturas de ecrã ou screenshots) do que está a passar no ecrã a cada 500 milissegundos.
Sim, leste bem. Duas vezes por segundo, a tua televisão analisa o que estás a ver – seja um filme, um jogo de vídeo, ou um canal de notícias – para criar um perfil detalhado dos teus hábitos. Essa informação é depois enviada para os servidores das empresas ou para parceiros publicitários, permitindo-lhes direcionar anúncios com uma precisão assustadora.
O processo contra a Samsung é particularmente incisivo, afirmando que “a maioria dos consumidores não sabe, nem tem razões para suspeitar, que as Smart TVs da Samsung estão a capturar em tempo real o áudio e os visuais exibidos no ecrã”.
O labirinto dos menus: 15 cliques para dizer “não”
Se a tecnologia de espionagem é sofisticada, a forma como as marcas supostamente obtêm o consentimento é descrita como enganadora. A acusação alega que ativar esta monitorização é incrivelmente fácil, estando muitas vezes “cozinhada” no processo de configuração inicial da TV, onde a maioria das pessoas clica em “Aceitar” sem ler.
Desativar a espionagem, por outro lado, é uma missão quase impossível. O processo descreve um sistema de menus labiríntico e pouco intuitivo, onde um utilizador pode ter de navegar por várias secções e fazer mais de 15 cliques para conseguir desligar a recolha de dados. No caso da Samsung, por exemplo, os utilizadores têm de encontrar e desativar pelo menos duas definições obscuras: “Viewing Information Services” e “Interest-Based Ads”.
O fator China e as multas milionárias
O processo distingue ainda as marcas chinesas, Hisense e TCL, com uma acusação adicional de segurança nacional. O Texas alega que a recolha de dados por estas empresas representa uma ameaça séria, sugerindo que o governo chinês poderia ter acesso fácil a essa informação.
As consequências financeiras para as empresas podem ser devastadoras. O Texas está a pedir indemnizações de até 10.000 dólares por cada violação, valor que sobe para uns estonteantes 250.000 dólares se a violação afetar pessoas com mais de 65 anos. Além do dinheiro, o estado quer proibir a recolha, partilha e venda destes dados enquanto o processo decorre.
A Samsung recusou-se a comentar o processo, mas a mensagem enviada por esta ação judicial é clara: o preço das televisões inteligentes pode ter descido nos últimos anos, mas o custo real estamos a pagá-lo com a nossa privacidade.

























Deixa um comentário