O primeiro ano de operação comercial da Digi em Portugal é uma história de duas realidades opostas, um caso clássico de sucesso industrial que colide de frente com um pesadelo financeiro. Por um lado, a empresa construiu uma máquina de aquisição de clientes, terminando o terceiro trimestre com mais de 813.000 serviços ativos. Por outro, os seus resultados financeiros revelam um “buraco” operacional de 110 milhões de euros.
A razão para este desequilíbrio é tão simples quanto brutal: a receita média mensal por cliente (ARPU) da Digi caiu para uns chocantes 6,90€. A empresa está a ter sucesso em ser a mais barata do mercado, mas está a descobrir que os clientes que conquista a este preço não são suficientes para pagar as faturas. Não admira que o CEO do grupo, Serghei Bulgac, tenha admitido ter um “sentimento misto” sobre a operação portuguesa.

O sucesso da engenharia: uma “grande conquista industrial”
O que a Digi conseguiu construir em Portugal, num espaço de tempo muito curto, é inegavelmente impressionante. Numa jogada de mestre para acelerar a entrada no mercado, a compra da NOWO por 150 milhões de euros deu-lhe um “pontapé de saída” imediato, trazendo 270.000 clientes móveis e 130.000 fixos para a sua base.
Mas a Digi não se limitou a comprar uma carteira de clientes; construiu uma infraestrutura. Serghei Bulgac classificou o esforço como uma “grande conquista industrial”, e os números confirmam-no:
- Rede Móvel: A rede da Digi assenta já em 4.500 torres de telecomunicações.
- Rede Fixa: A sua rede de fibra óptica chega agora a 1,1 milhões de casas.
- Presença Física: Mais de 50 lojas físicas foram abertas em todo o país.
O resultado é um crescimento visível: no último trimestre, a Digi adicionou 23.000 novos clientes móveis e 6.000 de internet fixa. Conseguiu construir, em tempo recorde, a espinha dorsal de uma operadora de pleno direito.
A ressaca financeira: os custos estão 68% acima das receitas
O problema é que esta conquista industrial teve custos gigantescos que a operação comercial, para já, não consegue de forma alguma suportar. O modelo de negócio da Digi, focado em preços de entrada “agressivos” (abaixo até das marcas low-cost rivais), está a revelar-se financeiramente insustentável nesta fase.
Os números dos primeiros nove meses do ano são um banho de água fria:
- Receitas: 52,5 milhões de euros.
- Despesas Operacionais: 88,2 milhões de euros.
Isto significa que os custos da operação estão 68% acima das receitas. A faturação trimestral (17,6 milhões) estagnou, mostrando-se incapaz de acompanhar o peso dos custos (29,4 milhões no trimestre). O resultado é um EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) negativo de 110 milhões de euros.
O “vilão” desta história é a receita média por cliente (ARPU). Ao posicionar-se deliberadamente na fasquia mais baixa do mercado, a Digi viu o seu ARPU cair de 7,70€ no início do ano para apenas 6,90€. Na prática, a empresa está a tentar construir um negócio multimilionário onde cada cliente lhe rende, em média, menos de 7€ por mês.
O “pico” do investimento passou. E agora?
Para o CEO da Digi, o pior do investimento já ficou para trás. O desembolso de 67 milhões de euros pelas licenças 5G, os 150 milhões pela NOWO e os cerca de 120 milhões em capex (investimento em capital) para construir a rede foram o “pico” do esforço. A partir de agora, o investimento continuará, mas a um ritmo mais estável.
O desafio monumental da Digi muda agora de foco. O primeiro ato, o de construir escala, foi concluído com sucesso. Começa agora o segundo ato, muito mais difícil: transformar essa escala em lucro. Com a integração dos clientes da NOWO ainda a decorrer lentamente (especialmente no serviço fixo) e com o serviço de telefone fixo a “encolher” mais de 6% num único trimestre, a Digi enfrenta uma encruzilhada.
Como pode a empresa começar a ganhar dinheiro quando a sua única proposta de valor é ser a mais barata? Aumentar os preços arrisca-se a fazer fugir os 800.000 clientes que acabou de conquistar. Manter os preços significa continuar a queimar milhões. O “sentimento misto” do CEO é o eufemismo perfeito para a armadilha em que a própria Digi se colocou.

























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