A indústria automóvel mundial vive um momento de contrastes profundos. Em fevereiro de 2026, as vendas globais de veículos elétricos (VE) atingiram a marca de 1,1 milhões de unidades, mas este número esconde uma realidade fragmentada. Enquanto o Velho Continente ganha um novo fôlego e bate recordes de adoção, a América do Norte enfrenta uma queda abrupta que coloca em causa o ritmo da transição energética naquela região. Se acompanhas este mercado, percebes que a política e os incentivos financeiros voltaram a ser os grandes protagonistas do setor.
Os dados mais recentes da Benchmark Mineral Intelligence revelam que o total global de vendas em fevereiro recuou 11% face ao ano anterior. No acumulado dos dois primeiros meses de 2026, o mercado mundial totaliza 2,2 milhões de unidades, o que representa uma descida de 8% em comparação com o mesmo período de 2025. Contudo, esta descida não é uniforme; trata-se de um ajuste de forças onde a China recalibra a sua estratégia e o Ocidente se divide entre o entusiasmo europeu e o ceticismo norte-americano.

O renascimento europeu impulsionado por subsídios
Se vives na Europa, já deves ter reparado que a oferta de carros elétricos nunca foi tão variada, e os números confirmam que os condutores estão a responder positivamente. O mercado europeu cresceu 21% no acumulado do ano, servindo de motor principal para a indústria global neste momento. Países como a França e a Alemanha lideram este movimento, provando que o apoio estatal continua a ser a peça fundamental para convencer o consumidor a trocar o motor a combustão pelas baterias.
A Alemanha, após introduzir um novo programa de subsídios no início de 2026, viu as suas vendas subirem 26%. A França não fica atrás, com um crescimento de 30% alicerçado em incentivos sólidos. Mas a grande surpresa vem do Sul: a Itália registou o seu melhor mês de sempre em fevereiro, com um salto de 23% nas vendas mensais. Graças a fundos da União Europeia, as famílias italianas podem receber até 11.000 euros para comprar um elétrico, o que explica por que razão o mercado transalpino já cresceu quase 100% este ano.
O inverno rigoroso nas vendas da América do Norte
Enquanto a Europa celebra, o cenário do outro lado do Atlântico é de grande preocupação. A América do Norte registou uma queda de 36% nas vendas de elétricos no primeiro bimestre de 2026. Este declínio é liderado pelos Estados Unidos, onde marcas históricas enfrentam dificuldades em escoar o inventário. A Ford, por exemplo, viu as suas vendas de veículos a bateria caírem 70%, enquanto a Honda e a Kia registam quebras de 81% e 52%, respetivamente.
Esta travagem não afeta apenas os concessionários, pois o impacto já se sente nas fábricas. A fabricante de baterias SK On teve de despedir mais de um terço da sua força de trabalho na Geórgia devido à baixa procura. Analistas apontam para as mudanças políticas na administração norte-americana, que tem trabalhado ativamente para reduzir os apoios ao setor, como a causa principal para este desânimo dos consumidores e fabricantes. No Canadá, a solução passa por uma aproximação à China, permitindo a entrada de veículos chineses com tarifas reduzidas para tentar baixar os preços e reanimar o mercado.
A China exporta o seu excedente para o mundo
A China, o maior mercado de veículos elétricos do mundo, atravessa uma fase de transição interna que baralha as contas globais. Em fevereiro, as vendas internas caíram 32%, influenciadas pelo regresso de um imposto sobre a compra de veículos elétricos que não existia desde 2014 e pelas festividades do Ano Novo Chinês. No entanto, desengana-te se achas que a indústria chinesa está a perder força; a estratégia mudou apenas de foco.
Se por um lado o consumo interno abrandou, as exportações dispararam. Nos dois primeiros meses de 2026, as marcas chinesas enviaram mais de meio milhão de carros para o estrangeiro, o que representa mais do dobro do registado no ano passado. Com metas de exportação agressivas, as fabricantes da China procuram dominar mercados onde a procura ainda resiste, utilizando a sua capacidade de produção massiva para oferecer preços competitivos que as marcas europeias e americanas têm dificuldade em igualar.
Novos protagonistas e o futuro da mobilidade
Para lá dos três grandes blocos económicos, o resto do mundo está a abraçar a mobilidade elétrica com um entusiasmo sem precedentes. As vendas fora dos mercados principais cresceram 84% no primeiro bimestre de 2026. A Coreia do Sul é o exemplo perfeito deste fenómeno, onde as vendas mais do que triplicaram num único mês, superando pela primeira vez a marca das 30.000 unidades mensais. Pela primeira vez na sua história, os elétricos representam 30% do mercado automóvel sul-coreano.
Este sucesso coreano deve-se a um programa de subsídios focado em veículos mais pequenos e acessíveis, o que prova que o preço continua a ser o fator decisivo para o utilizador comum. Em suma, a transição para o veículo elétrico não parou, mas tornou-se muito mais heterogénea. O futuro depende agora da capacidade de cada região em manter políticas de apoio estáveis e em garantir que o custo de aquisição desce para valores comparáveis aos dos carros a gasolina.























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